sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O ventre da terra

O planeta Terra é um corpo com vida que permite ser utilizado, para a subsistência humana e animal, dentro de limites. Este é um imperativo que independe da nossa vontade. Mas já há algum tempo o leito do nosso hábitat vem sendo usado como “barriga de aluguel” para plantações. O solo brasileiro está nesta situação, já que é preparado a produzir para outras nações.

A China, a segunda economia mundial, não consegue viver à custa de seus recursos naturais, tendo que importar matérias-primas e madeira. Ela se tornou o primeiro importador mundial de soja, a maior parte do Brasil. Somente no mês de julho, adquiriu 5,2 milhões de toneladas. Ou seja, estamos alugando as entranhas do nosso país para alimentar aquela população.

É uma situação cômoda para eles, pois não exaurem suas terras e rios. Também não extinguem suas florestas, pois delas necessitam para purificar o seu ar, sabidamente o mais poluído do mundo. Se a intenção é válida para os chineses, para nós é decepcionante, já que estamos trocando ar puro, que já tivemos, por poluição de toda ordem, causando mudanças climáticas assustadoras, constantes.




Convém considerar os avisos que a natureza nos envia: quanta chuva e inundações temos tido nos últimos tempos? E as secas? Sem falar na saúde da população, que entope seus pulmões com um ar carregado de impurezas. Neste, se destaca o famoso SO2 (dióxido de enxofre) dos motores a óleo diesel de caminhões e ônibus. Muito desta poluição atmosférica já se dá no próprio transporte da soja para os portos do nosso país.

Mas o pior ainda está por vir: a nossa equipe política, sob pressão ou vantagens, está tentando aumentar as áreas de plantio. Para atingir este objetivo, propõe reduzir as áreas de matas ciliares dos rios para uma inacreditável marca de apenas cinco metros de afastamento. Devemos lembrar que nas plantações são usados defensivos agrícolas (venenos) que, por isso, precisam ficar distantes de cursos d’água para não degradá-los ainda mais. Pretende-se também extinguir as APPs (áreas de preservação permanentes) nas pequenas propriedades. E, ainda, o perdão de débitos à nação oriundos dos empréstimos e desmatamentos.

Ao contrário dessas pretensões, o que se espera da política agrícola é o aumento das áreas de proteção ambiental. Investir contra esta carência seria uma demonstração de: ou ganância, ou desconhecimento, ou irresponsabilidade para com a sociedade brasileira. Pode-se concordar em exportar excedentes, mas sacrificar o nosso maior bem – a terra –, que representa em grande parte a nossa própria vida, é inaceitável.


Por: Victor Hugo Belardinelli, dentista pós-graduado em ecologia humana

Publicado na Zero Hora (13/01/2012)

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