sexta-feira, 21 de junho de 2013

Sobre protesto e mudança

Desde que iniciaram os protestos, meu filho, meus sobrinhos e seus amigos me disseram que eu não devia participar das manifestações, porque não queriam políticos, não queriam ninguém. Queriam liberdade. Fiquei assistindo a tudo com muito orgulho. Vendo meu filho, meus sobrinhos e seus amigos indo às ruas. Indo ao meu palco, ao meu terreno, aonde me criei, aonde me formei, aonde me forjei - na luta do dia a dia.

Fiquei acompanhando esses dias o movimento. Uma leve dor no fundo do coração. Estava se aproximando a Copa das Confederações. Fui e sou um grande crítico da Copa. Quando Pelé e Lula festejaram que a Copa do Mundo seria no Brasil, senti uma tristeza, porque sabia que não seria apenas ir ao Maracanã, ao Pacaembu e demais estádios reformados, ou comer um churrasquinho, um acarajé, um entrevero, tomar uma pinga, um Guaraná Jesus. Seria a abertura do cofre, gastando bilhões e bilhões que sairiam da Saúde, da Educação e Moradia, para a construção de monumentos. E também, a entrega do Brasil para intervenção da FIFA. Aí, teriam início a Copa das Confederações e o movimento perderia a sua força.

Mas não. Os meninos e meninas, os de meia-idade, os idosos, se incorporam e seguem nas ruas. Ontem, após a CPI da Telefonia, disse ao meu filho, seus amigos e aos meus amigos: "Hoje tem caminhada. Vamos para a caminhada". Quase todos disseram "não, não vai", "o pessoal não quer político", "vão te bater", etc. Fiquei quieto ouvindo todos os argumentos, tudo aquilo.

Enquanto falavam, vieram várias lembranças na minha cabeça. Minha primeira greve, por um par de sapatos numa obra, para poder trabalhar com dignidade, sem machucar meus pés. Minhas lutas no movimento estudantil, campanha pelas Diretas, anistia, Greve Geral de 79, de 81, os encontros da classe operária, o Conclat, as centenas de greves, passeatas, mobilizações, o Impeachment do Collor, as prisões, os ossos quebrados, as camas de hospital, os momentos que perdi na vida junto dos meus familiares, amigos, as pessoas que eu amo - aniversários, nascimentos, mortes, momentos que jamais voltarão, que jamais recuperarei, de carinho, conforto, beijos que não dei na minha amada, festas que não fui, momentos que não fiquei com meu pai e minha mãe, e por aí afora.

Meus olhos lacrimejaram e disse para eles que estavam enganados. Não sou uma tartaruga que volta para morrer na praia ou um elefante que se recolhe na ravina. Disse que "se está chegando o meu fim, que o meu fim seja no meu palco. Hoje eu vou nessa caminhada. Porque se hoje essa juventude vai para a rua, muitos por 'achar legal', por achar que tem algo para lutar, eu vou porque eu vivi a minha vida inteira lá".

E vou dizer pra essa juventude que algumas coisas avançaram e muito mais precisa avançar. Pra isso acontecer, eles têm que entender que é preciso fazer um novo Pacto Federativo. A União detém 62% dos impostos e o município fica com 14%. Temos que inverter isso. Temos que fazer uma reforma política, séria e de fato. Não com voto de lista, que falam e propagandeiam os políticos, mas com voto distrital, clareza nas doações de campanha, limites de mandato e o fim das políticas de coligações. E uma justiça que seja justa, rápida. É necessária uma reforma no Judiciário. Além disso, mais hospitais para o Programa de Saúde da Família, Postos de Saúde 24h, 10% do orçamento para a Educação, com todas as Escolas de Turno Integral, uma nova tabela de Imposto de Renda (não pode um trabalhador que ganha R$ 1.400 de salário pagar 7% de imposto de renda) e auditoria nas obras da Copa.

Fui para as ruas. Andei pelo grande palco: Andradas, Borges e no Paço Municipal, onde estive nas Diretas, no Impeachment. Tirei foto, dancei, cantei, gritei. Fui o que eu sou: o bom e velho Janta. O bom e velho guerreiro. Vi alegria nos olhos dos jovens, das pessoas da minha idade, nos idosos.

Mas nós temos que ter cuidado. Como todos os movimentos que participei, sempre tem os infiltrados. As pessoas de bem estavam de cara limpa. No máximo, com uma tinta na cara, um batom na boca, uma pintura nos olhos. Os marginais, a extrema da extrema direita, ou a extrema da extrema esquerda, ou os que pregam o estado da anarquia e da desordem, que não querem soluções para os problemas concretos, taparam seus rostos. Quem não tem vergonha do que faz, quem faz o que é certo, não precisa se esconder atrás de máscaras.

O movimento está alcançando força. Mas os nossos objetivos de um Brasil mais justo para todos, não vamos alcançar somente com passeatas e caminhadas. Todo apoio à paralisação nacional. Rumo à greve geral.

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