quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Política às avessas


A classe política fica mais distante, dia após dia, da credibilidade necessária para retomar o sentido da representação democrática que constitui. Em mais uma demonstração de lapso cognitivo, vemos ser aprovada a aposentadoria especial para os deputados na Assembleia do Estado, que assumiram os cargos eletivos como profissão e não pretendem largar o osso pelo menos pelos próximos 35 anos, que é a condição para receber os proventos no valor integral.

Em meio ao desgaste das instituições políticas e seus atores, logo após um processo eleitoral com quase 20% de abstenção e enquanto emana da sociedade o debate da reforma política para moralizar a relação entre a política e o capital, os cofres públicos devem sofrer mais um baque: R$ 600 mil por ano. Este é o valor que será desembolsado pela Assembleia como contribuição para aposentadorias dos deputados.

Enquanto isso, o trabalhador se aposenta com uma renda inferior ao que ganhava e é arrochado com os consecutivos reajustes do benefício abaixo da inflação. Ou então depende dos fundos de previdência privada, que seriam uma alternativa àqueles que optaram por dedicar a vida a serviço da população, e que agora cobram dela a sua aposentadoria.

Na última semana debatíamos na Câmara Municipal os problemas da saúde em Porto Alegre. Muitos deles cabem à gestão, mas outros tantos esbarram na crise de investimentos no setor. Hospitais enfrentam a falta de recursos para implementação da média e alta complexidade nas unidades, por exemplo.

Recursos também deixam de ser empregados na educação. Prova disso é a situação do magistério, de conhecimento geral, mas que não sensibiliza um Estado cujos parlamentares aprovam sem discussão um benefício, fazendo uso do mesmo dinheiro público, para a própria classe. Ou seja, num ato de negligência com o cidadão, saúde e educação não têm a mesma prioridade.

A lógica é simples, mas precisa ser revertida. Parlamentares devem trabalhar em prol de políticas para a sociedade, em vez de a sociedade bancar políticas em benefício dos detentores de mandato.

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