quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A verdadeira face da Uber

Porto Alegre é considerada referência internacional do que tange aos debates democráticos. Identificada com o Fórum Social Mundial, nossa Capital também é signatária do compromisso com Trabalho Decente - conceito que abrange os quatro objetivos estratégicos da Organização Internacional do Trabalho (OIT): o respeito aos direitos no trabalho, a promoção do emprego produtivo e de qualidade, a extensão da proteção social e o fortalecimento do diálogo social. São valores que a nossa cidade tem o compromisso de tomar como balizadores em todas as discussões que envolvem o mundo do trabalho, exceto em relação ao transporte individual de passageiros.

A exceção à regra foi galgada por uma multinacional bilionária, que foi capaz de enriquecer explorando mão-de-obra, bens de terceiros e brechas nas legislações ao redor do mundo. Sob o preceito da inovação e de um arsenal midiático, a Uber atropela leis e impõe uma lógica trabalhista, econômica e de mercado própria, onde quer que se instale. Em Porto Alegre, não tem sido diferente.

Nossa cidade, tão afeita ao debate, ativista das causas sociais, calou-se. Rendeu-se a um único discurso, que trabalha para acelerar a regulamentação fajuta de um serviço que garante lucros apenas para a empresa, que não reconhece direito algum aos seus empregados e que acaba com empregos formais.

A pressa para regulamentar o serviço se justifica quando as táticas adotadas pela empresa começam a se tornar mais claras. Propagandearam a disponibilização de carros de luxo operando em uma tarifa abaixo da praticada pelos taxistas. Mesmo na realidade sendo apenas carros populares, já caracterizava uma forma de dumping - termo que designa a prática de oferecer produtos ou serviços abaixo do preço de mercado para eliminar a concorrência. Agora, a empresa reduziu ainda mais a tarifa, passando a competir com o transporte coletivo, numa clara demonstração de que está disposta a assumir prejuízos bilionários no caminho de se tornar a única opção do mercado.

São estratégias nefastas, sob todos os pontos de vista envolvidos. Os primeiros a perceberem são os próprios trabalhadores do serviço, que atenderam aos requisitos, colocando automóveis de padrão elevado na frota, que já ultrapassa os 6 mil veículos, e que são obrigados a assumir hoje esse prejuízo, que visa o lucro de um amanhã, que talvez não tenham pernas para perseguir.

Enquanto isso, a enganação segue em curso, apoiada pela satisfação imediatista e meramente utilitarista de quem se locomove de motorista particular pagando menos que a passagem de ônibus. Enquanto isso, quem teve na atividade a única fonte de renda da sua família durante a vida toda continua imerso na incerteza, abandonado pelo seu próprio ente regulador e esperando um veredito já anunciado, que vem a galope.

O que é tudo isso, afinal? Golpe?


Nenhum comentário:

Postar um comentário